19 de jun de 2016

RESENHA: Aristóteles e Dante Descobrem os Segredos do Universo

postado por Jana Teixeira


Título Original: Aristotle and Dante Discover the Secrets of the Universe
Autor(a): Benjamin Alire Sáenz
Ano: 2014
Editora: Seguinte
 Páginas: 392

Tem algo de muito bonito nos livros juvenis que falam sobre homossexualidade. Em geral, todos são uma bela dose de aprendizado. Já falei algumas vezes em resenhas que adolescência é muito mais difícil do que a gente deixa parecer. É o momento em que nós damos de cara com o mundo pela primeira vez e percebemos que a vida é muito mais complicadas do que nossos pais nos fizeram achar durante a infância. É uma época de descobertas.

Sempre quis muito ler a história de Aristóteles e Dante escrita por Benjamin Alire Sáenz exatamente por achar que o livro seria mais um que traria essa questão de maneira gloriosa, mas acabou que a história é muito mais do que isso. 

Aristóteles é um garoto relativamente quieto - mas que não tem medo de encarar uma briga quando necessário - e que está passando pelas férias de verão. Ele é o mais novo de quatro filhos, mas a família toda age como se o irmão mais velho de Ari não existisse. Ele fez algo ruim, foi para cadeia e desde então foi apagado da história da família Mendoza. Ari não sabe o que Bernardo fez, só sabe que sequer lembra das feições do irmão.

Em uma tarde no clube, Aristóteles conhece Dante, um garoto que facilmente poderia ser o seu oposto. Dante é comunicativo, emotivo, gosta de conversar e aprecia as pequenas coisas da vida como andar descalço e o cantar dos passarinhos. Ele vê o mundo de uma forma diferente e talvez isso faça com que os dois se aproximem tão rápido. Logo Aristóteles e Dante, os meninos com nomes de filósofos, se tornam melhores amigos.

Dante é muito seguro e tem certeza de quem ele é. Aristóteles não. Ele está perdido, tentando entender o pai – um veterano atormentado pela guerra -, a mãe, o irmão de quem ninguém fala, os outros garotos e garotas do mundo, e os próprios sentimentos. Com Dante é mais fácil, ele já se conhece então ele sabe o que ele quer, já Ari...Tudo acontece muito sutilmente dentro do nosso protagonista e narrador. 

O texto de Benjamin Sáenz é muito objetivo e eu gostei de como ele trouxe as reviravoltas que explodem em nós com um tom natural, sem alarde. É assim que elas costumam acontecer, né? Independente do que, quase tudo acontece sem uma comoção estratosférica. Por que seria diferente em um livro? Acho que foi isso que me fez gostar mais ainda de tudo. A história de Ari e Dante é natural. É sensível e delicada. Não tem exageros ou coisas que aconteceriam só na ficção (infelizmente e felizmente).

O livro se passa na década de 80, o que deixa as descobertas dos garotos mais difíceis e complexas. Se o mundo não é tolerante agora, imagina 30 anos atrás. Porém, Dante e Ari têm sorte o suficiente para viverem com famílias que acreditam no amor, seja ele qual for. Quero acreditar que um dia, todas as pessoas também serão assim.

Antes de começar a ler eu me peguei pensando no que seriam os “segredos do universo” citados no título. O que os protagonistas descobririam. Seria algo real ou metafórico? No final da leitura eu entendi: foi as duas coisas. Ari e Dante passam por muita coisa no livro. Acidentes, mudanças, distância e até por um ato horroroso de puro ódio. Durante tudo isso eles desbravam a vida e descobrem os tais segredos. O universo são eles.

12 de jun de 2016

RESENHA: Cartas de Amor Aos Mortos

postado por Jana Teixeira




Título Original: Love Letters To The Dead
Autor(a): Ava Dellaira
Ano: 2014
Editora: Seguinte
 Páginas: 344


A primeira vez que eu tentei ler “Cartas de Amor aos Mortos” foi em 2014. Li umas 50 páginas e desisti. Coloquei a culpa no momento em que eu estava da vida. Eu acredito muito que aproveitamos ou não uma história de acordo com o nosso estado de espírito no momento, então achei que tinha sido isso que me fez não aproveitar tanto a leitura na época. Resolvi tentar ler de novo esse ano já que eu estou bem melhor do que dois anos atrás. Comecei no final de abril e terminei hoje. Foram quase dois meses de leitura. Tenho que admitir que eu estava sem tempo para ler e conseguia apenas pegar no livro de final de semana. Isso colaborou muito com a minha leitura lenta, claro, mas talvez se fosse um livro mais fácil e leve eu teria acabado mais rápido. A obra de Ava Dellaira é tudo menos leve.

Não sou muito fã de histórias contadas inteiramente por meio de cartas. O único livro do estilo que me cativou foi “As Vantagens de Ser Invisível”. Confesso que demorei muito para entrar no ritmo de “Cartas de Amor aos Mortos” exatamente por não conseguir me envolver quando o enredo é mostrado em forma de diário ou algo parecido. Esse também foi um fator que colaborou na minha leitura lenta.

A história é sobre Laurel, uma garota de 15 anos que perdeu a irmã mais velha recentemente. May era tudo para Laurel. Era sua inspiração, seu espelho, sua melhor amiga. Como um exercício dado em uma matéria em sua nova escola, Laurel tem que escrever cartas para pessoas que morreram e ela decide escrever para artistas e falecidos que de alguma forma têm relação com a vida dela. É por essas cartas que nós vamos descobrindo, pouco a pouco, o que aconteceu com Laurel e May.

Apesar do texto leve e escrita simples, logo no começo a história já dava sinais de que entraria em um lado obscuro e tenso. Eu só não imaginava o quanto. Laurel vai para uma escola nova para não ter que lidar com as pessoas a olhando com pena devido à morte de May. No novo colégio ela encontra o amor e novas amigas, mas nem isso é simples nessa história. Tudo tem uma questão mais profunda do que parece e essa é a grande chave do livro.

Laurel está sofrendo com a morte da irmã, com o afastamento da mãe que foi morar em outro estado, e com alguma coisa a mais que nós sabemos o que é perto do final do livro. A autora trouxe temas críticos para a história como homofobia, aceitação, violência física, problemas psicológicos e abuso sexual. Tudo de uma maneira crua e sem o típico “amaciamento” que de vez em quando vemos em livros que não querem assustar os leitores. Essas coisas tornaram a leitura agoniante para mim. Certos assuntos mexem muito comigo e a Ava conseguiu deixar tudo muito real ao ponto de eu ter que fechar o livro e dar uma respirada antes de continuar a ler.

Por sinal, acho que essa é uma boa forma de descrever o livro. Ele é real demais. E a realidade é pesada e angustiante na maioria das vezes. Têm coisas na vida que não podemos mudar, mas têm outras que poderiam ser evitadas se as pessoas apenas fossem mais altruístas e respeitosas. Pensar em como o mundo pode ser horrível me deixa apavorada e, sim, nós vemos esse tipo de coisa toda hora na televisão, mas é aquela velha história: livro são portais de magia e uma boa leitura te marca, para o bem ou para o mal.

Acho que ler tanta coisa forte em um livro só me deixou um pouco desnorteada e isso não é ruim. Ás vezes precisamos de um choque de realidade e essa história com certeza é um. O texto de Ava é delicado, mas algumas coisas não podem ser mascaradas, por mais que tentemos deixá-las melhores. O que aconteceu com Laurel, com May e com as novas amigas de Laurel está acima de qualquer explicação. Não existe explicação. 

No fim, achei uma leitura muito válida. Gostei do livro e do alerta que a história dá para todas essas questões. Porém, a leitura pesou em mim e por isso eu não o releria. São sentimentos demais que eu não gostaria de sentir de novo.

2 de jun de 2016

Leituras do mês: Quantidade X Qualidade

postado por Jana Teixeira

Já começo com a bomba: a quantidade de livros lidos no mês de maio foi 0. Sim, eu não terminei nenhum livro mês passado. Comecei “Cartas de Amor aos Mortos” da Ava Dellaria, mas não concluí a leitura até agora. É a segunda vez que eu tento ler esse livro, porém não posso colocar nele a culpa do meu mês sem livros. A culpa é da vida. Algumas mudanças boas aconteceram por aqui no último mês e eu acabei ficando sem tempo pra ler. Isso está me fazendo mal, não por eu sentir que é minha obrigação ler vários livros por mês, mas sim por eu não estar conseguindo fazer uma das coisas que eu mais amo na vida.

Esse meu momento me levou a refletir sobre a pressão que algumas pessoas têm com relação à leitura. Enquanto umas não leem sequer um livro por ano, outras se sentem obrigadas a ler o máximo de livros possível em um curto período de tempo. Claro que tem aquelas pessoas que leem bastante por puro prazer ou por simplesmente terem uma leitura rápida, mas vejo bastante por aí - principalmente no mundo de blogueiros literários -  o dever de ler muito em poucos dias.

A leitura é uma atividade cultural que desenvolve a fala e à escrita, mas ler apenas por ler tem o mesmo efeito? Vi um dia desses essa discussão no Twitter do PC Siqueira que estava defendendo a recente explosão de livros de Youtubers, gênero que faz muita gente torcer o nariz. Algumas pessoas acham que os livros desses famosos da internet são leituras perdidas – apesar de nunca terem os lidos para realmente saber - , outras já acham que não importa o que seja, o importante é ler.

Minha opinião sobre os livros de Youtubers não vem ao caso até porque nunca li um para falar com propriedade sobre o assunto, mas no geral acredito que existem dois processos de leitura: o exercício de ler, e o ler por prazer. Ler é um hábito, quanto mais você faz, mais costume você pega até que a leitura comece a fazer parte da sua vida. Para isso, o conteúdo do livro não precisa ser fenomenal e não precisa ter um poder transformador. Ele só precisa segurar sua atenção. Já o ler por prazer é mais do que uma ação automática e habitual, é quase um ritual. É com ela que encontramos histórias que moldam o nosso ler. As duas formas de leituras são válidas, porém têm resultados e objetivos diferentes.

Talvez eu pudesse ter lido alguns livros em maio, apenas utilizando o meu hábito de ler. Decidi não fazê-lo porque não faço parte do grupo de pessoas que leem rápido por prazer. Eu não teria aproveitado as leituras, e poucas coisas são piores do que um livro perdido. Ler algo com pressa ou em horários que você não está confortável o bastante para mergulhar na história acaba resultando em uma leitura que não te agrega nada, não te marca ou te comove, independente do quão bom o livro seja. Eu gosto de ler e de me sentir na história, gosto de me deixar levar pelas palavras, entrar no mundo que o autor criou com tanto cuidado e ver os detalhes. Ler pra mim é quase um ritual sagrado e não uma meta a ser alcançada. Claro que quanto mais livros melhor, mas no meu caso quantidade não é sinônimo de qualidade. 

Acho o que eu quis dizer com tudo isso é: calma, borralhos, as resenhas vão voltar em breve!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...