11 de mai de 2016

RESENHA: A Extraordinária Garota Chamada Estrela

postado por Jana Teixeira





Título Original: Stargirl
Autor(a): Jerry Spinelli
Ano: 2014
Editora: Gutenberg
 Páginas: 192


Li “Stargirl” há muito tempo atrás depois de ter visto um vídeo de uma youtuber gringa em que ela listou livros que todo adolescente deveria ler. Gostei da capa que ela mostrou da obra do Spinelli (rosa-choque com o desenho amarelo de palitinho de uma garota) e amei o nome. Fui procurar e o li no mesmo dia. Voltei no vídeo da youtuber e escrevi um comentário agradecendo pela dica, mas a corrigi: “Stargirl” é um livro que todo mundo deve ler, independente da idade.

Sim, a história é sobre adolescentes, se passa em um colégio e o texto do Spinelli é bem simples. Pode parecer um enredo bobinho para pessoas mais velhas, mas se ela ler com atenção vai entender que esse livro é uma lição sobre ser você mesmo sempre. Seja autêntico, seja livre.

Estrela é uma garota mágica. Ela se veste de um jeito esquisito, tem um rato de estimação, toca ukelele e canta parabéns para os aniversariantes do dia no meio do refeitório da escola. Estrela se conhece muito bem. Estrela vê o mundo com olhos diferentes. Estrela é diferente e não se importa com o que as outras pessoas pensam disso.

Ao chegar ao novo colégio, as peculiaridades de Estrela a tornam famosa. Em um primeiro momento, todos se encantam com a garota nova e “meio doida”. Com o tempo, claro, o apresso das pessoas se torna desgosto e Estrela vira alvo de chacota. Tudo aquilo que antes a fez ser amada, agora a faz ser desprezada por todos os alunos. Mas o mais incrível é que ela continua não ligando. Não importa se o mundo a ama ou a odeie, Estrela é assim e ponto.

Leo, nosso narrador, percebe isso mas não entende como ela pode ficar bem sendo motivo de risada da escola inteira. Leo está apaixonado pela garota estranha e por isso acha que tem o deve de ajudá-la a ser uma pessoa “normal”. Assim ela teria paz no ambiente escolar e, mais importante de tudo, os dois poderiam finalmente ficar juntos sem atrair olhares estranhos das outras pessoas.

É tentando ajudar que Leo descobre que nada pode mudar a nossa essência, e que não vale a pena tentar mudar o que você é apenas para ser aceito pelo resto do mundo. Mudar não deixa nada mais fácil.

A sinopse da Gutenberg diz que o livro é uma “celebração do inconformismo” e é isso e muito mais. “A Extraordinária Garota Chamada Estrela” é um grito contra padrões e contra a ideia de que ser diferente é errado. É uma análise sobre o ambiente escolar que pode ser muito tóxico e que muitas vezes condiciona os alunos a ditarem regras absurdas em favor da popularidade. Vale a pena ser popular, mas perder a própria essência? É isso que Leo vai aprender e da pior maneira possível.

Por isso eu digo, esse livro é para todas as idades. Não importa quantos anos o leitor tem, a mensagem aqui é aceite-se, abrace quem você é e tudo o que te faz ser você e viva!

5 de mai de 2016

Pedir representatividade na Literatura não é vitimismo!

postado por Jana Teixeira





Quando eu digo que representatividade importa em resenhas que faço ou em conversas triviais sempre acho que isso deve soar um pouco demagógico demais para algumas pessoas. Se o clamor por representatividade soa como vitimismo pra você leitor, deve ser por que você e sua etnia é representado em todos os meios de arte e cultura que existem. Você se vê nos lugares. Eu e boa parte da população não temos esse privilégio. Não nos vemos na televisão, no cinema, nas revistas ou nos livros. É como se nós não existíssemos de verdade. 

Vamos falar sobre livros, essas coisinhas mágicas que nos transportam para inúmeros lugares, mas que nem sempre conseguem nos levar para realidades onde existam mais pessoas como nós: negros, asiáticos, indígenas, indianos, gays, transexuais, assexuais, gordos, deficientes e mais uma dezena de minorias que quase nunca aparecem em livros ou quando aparecem é só para ser o "melhor amigo negro jogador de basquete", "o amigo japonês que ama robótica" e tantos outros esteriótipos que são automaticamente associados a alguns grupos.

Parece que em qualquer realidade paralela - seja ela saída de um livro, novela, filme ou propaganda comercial - só existe um tipo de pessoa. As brancas, magras, heterossexuais e donas de uma beleza midiática considerada padrão.

Nós só queremos ler algo que nos represente também.

O primeiro livro que eu me lembro de ter lido foi o “Menina Bonita do Laço de Fita” da Ana Maria Machado. É sobre um coelhinho branco que quer casar e ter uma filha “bem pretinha” como a sua dona. Mas como fazer isso se ele é tão branquinho? Eu era uma criança, devia ter menos de sete anos, mas meu pai – um homem negro - acertou na mosca quando resolveu comprar esse livro. O coelhinho branco acha a sua dona linda, ama a cor da pele dela e quer ter filhos que sejam daquela cor também. O livro, bem pequenininho e infantil, é uma declaração de amor a tudo o que compõe o negro. A cor da pele, o cabelo, o nariz achatado, os lábios grossos. O coelhinho nunca viu uma pessoa tão linda quanto a garotinha negra! Ah, como foi bom ler isso. Com sete anos eu já sabia que existia pelo menos uma história no mundo em que uma garota como eu era vista como bonita e merecedora de estar em um livro. Com sete anos eu pensava comigo: bom, eu também sou dessa cor, então devo ser bonita como a dona do coelhinho!

Representatividade importa.

Que pena que eu cresci e o número de livros com personagens principais parecidos comigo foram caindo. Talvez isso tenha acontecido por eu ter mudado de gênero de leitura com o passar dos anos. Parece que livros infantis estão mais abertos a agregar histórias com todos os tipos de pessoas do que os livros voltados para públicos mais velhos. Dá pra contar nos dedos quantos livros de fantasia, chick-lit, New adult ou Young Adult que eu li até hoje em que o protagonista não seguia o padrão europeu de beleza. Esse ano, por exemplo,  até agora foram dois. “P.s. Ainda Amo você” da Jenny Han (Lara Jean é descendente de coreanos) e “Tudo e Todas as Coisas” da Nicola Yoon (Maddy é filha de uma negra com um asiático).

Com 14 anos, época em que eu comecei a devorar todos os livros que via, eu pensava comigo: bom, eu não sou nenhum um pouco parecida com essas pessoas dos livros que eu amo. Será que tem alguma coisa de errada comigo?

Gente, representatividade importa demais. 

Se amar é um exercício constante. Amar a sua pele, o seu corpo, os seus traços e tudo o que te define não é fácil pra ninguém, eu sei disso. Mas quando você não encontra em lugar nenhum pessoas que compartilham as mesmas características que você, a coisa extrapola os limites de dificuldade. Como eu posso me amar se para onde eu olho eu não me vejo?

Para mim livros nos mostram horizontes, abrem mentes e caminhos, mas é incrível que ainda tenha tão poucas opções de histórias cujo personagens representem outras etnias, grupos e minorias. O mundo é tão grande. Sete bilhões de pessoas e todas diferentes uma das outras. Cada uma com a sua peculiaridade.


Então por que insistimos em pregar que apenas um tipo padronizado de pessoa merece viver uma história de amor ou uma grande aventura?

Espero viver para ver um mundo literário em que todos nós sejamos representados. Igualmente.

26 de abr de 2016

Resenha: Perdida

postado por Jana Teixeira




Título Original: Perdida
Autor(a): Carina Rissi
Ano: 2013
Editora: Verus Editora
Páginas: 364


Se você também é um dos atrasados que ainda não leu "Perdida", fique sabendo que esse é um conto de fadas moderno e muito brasileiro que merece a sua leitura. Já estava ficando com vergonha de ainda não ter lido nada da Carina Rissi - uma das escritoras contemporâneas brasileiras mais famosa e amada do momento – e, pior, não ter lido o tão comentado “Perdida”, livro que eu tenho desde a última Bienal de São Paulo que ocorreu em 2014.

Criei vergonha na cara, li e agora entendo o motivo do amor praticamente unânime que os leitores nutrem por essa história.

Sofia Alonzo é uma amante de romances da Jane Austen, mas ao mesmo tempo não acredita em amor ou em relacionamentos sérios. Ela também é uma dependente assumida das modernidades que o século XXI tem a oferecer. Computador, micro-ondas, máquinas fotográficas, televisão, carros e todas essas tecnologias que facilitam a nossa vida. Pois é logo um desses objetos aparentemente inofensivos que a faz viajar no tempo e parar no século XIX.

Depois de deixar seu antigo aparelho cair na privada, Sofia vai a uma loja de eletrônicos onde lhe é oferecido um celular que mudaria a sua vida. Ela não sabia que  as funções prometidas pela vendedora misteriosas seriam cumpridas tão ao pé da letra, mas Sofia acaba voltando dois séculos e conhecendo Ian Clarke.

A partir daí a história toma o rumo já esperado. Em uma época totalmente diferente, Sofia se desespera e faz o possível para voltar para o ano de 2010. Hospedada na casa do galante cavalheiro Ian, ela tenta se acostumar com ar falta de tudo aquilo que ela sempre prezou. Nem um banheiro ela tem à disposição! Sofia é avisada que só conseguirá voltar para casa quando “encontrar o que procura”, então ela sai em uma busca cega atrás de algo que ela nem sabe o que é. Parece um pesadelo horrível, mas a simpatia, cuidados e charme do Senhor Clarke, o carinho da irmã dele, Elisa, e algumas amizades abrem os olhos de Sofia que começa a entender que a vida não se resume a acessórios que fazem coisas por você.

Uma história de época de amor e desapego e ainda com uma pitada de Cinderela. Com certeza é uma receita infalível e isso já justifica o sucesso estrondoso de “Perdida”. Sofia é uma mocinha cuja teimosia pode irritar de vez em quando, mas é incapaz de despertar ódio nos leitores. Ela é engraçada, espirituosa, nada graciosa e muito diferente de Ian, o mocinho digno de Mr. Darcy.

Acho que o texto da Carina também é um dos ingredientes que tornaram "Perdida" tão amado. Sua escrita simples e jovial facilita a leitura e nos aproxima ainda mais da personagem principal. Quase podia ouvir a voz da Sofia na minha cabeça enquanto passava pelas páginas. O estilo da narrativa com certeza combinou com o narrador.

Para os amantes de romance de época, a história é um prato - de porcelana e detalhes feitos à mão - cheio. Os vestidos, cenários, linguagem e costumes do século XIX são muito bem retratados e sempre de uma forma engraçada por meio da nossa protagonista que passa metade da história sentindo falta de um chuveiro.

“Perdida” pode não ser um livro perfeito, mas tem um enredo criativo e autêntico que faz Carina Rissi merecer a incrível quantidade de fãs que conquistou.

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